Agonizante Silêncio… O Teu Esquecimento!
"Straight Way", de Filipe Santos (Olhares.com)
Vira-o ficar sem palavras e foi então que decidiu fugir de casa, carregando o medo entre dentes para não se sentir só. De um momento para o outro achou-se descalça no meio da rua, sem roupa a cobrir-lhe o corpo procurando com o olhar o décimo segundo andar num prédio que só tinha oito, e tudo isso a deprimia, a fazia ficar assim encolhida a um canto na sala gigantesca, onde as antigas visitas da mãe a olhavam, elogiando a sua beleza e perguntavam o seu nome. Maria Clara, mais tarde M. C. e depois sem identificação, etiqueta em branco, presa ao dedo grande do pé, quando se encontrava em cima da mesa da morgue, com o bom douctor a abri-la e a tentar perceber. Foi depois de ter fugido dele que tudo aconteceu.As coisas têm sempre um principio, este foi que ele, num acesso desinteressante de qualquer coisa, atirou janela fora um ramo de rosas, que ela podia jurar, mudavam de cor consoante as pessoas da sala. Depois tudo ficou em silêncio e ela olhando-o viu então que ia ficar calado e isso desgostou-a tanto que abriu a porta e saiu a correr para que ele não conseguisse agarrar-lhe os pensamentos, desceu a avenida sempre encostada ao lado direito, rente à parede, por debaixo das varandas, para que não a vissem, trazia uma gabardine por cima da pele, que não lembrava ter vestido, reconheceu-a como sendo dele pelo calor que exalava dela, meteu-se por ruas estreitas e vielas que mais pareciam labirintos que um caminho que a afastasse dele.
Percebeu então que tudo se esquece, tal como na noite em que dormiu com ele pela primeira vez e sentiu uma enorme força, roubando-lhe as memórias e atirando-as certeiras para o país do adormecimento, para nunca mais serem acordadas. Esquecidas as lembranças e os erros com elas, os becos sem saída, escuros e degradantes, faziam agora algum sentido.
Chegou ao rio, sem saber muito bem por onde. Talvez todos os caminhos levem ao rio, para se purificarem. Mas aquele impacto dos olhos batendo na água brilhante do rio produziu nela a maior sucessão de imagens que alguma vez julgou poder sentir, uma explosão inegualável por nenhuma bomba atómica ou asteroíde, contudo, Maria Clara, sentiu nessa noite, que uma enorme pulsar atingira, finalmente, a sua vida. Apanhou o barco para o outro lado, comprou o bilhete, sorrindo ao vendedor e, deixou a carteira em cima da cadeira.
As luzes acertavam no rio com toda a sua dolorosa força e aquela certeza de bem-existir. Depois o barulho da água, o toque, aquela sensação de ser luz e acertar na água com força. Ir ao fundo, num desejo de cair sem perceber porquê, por quem. Cair na confusão criando um tumulto, com as pernas e os pés, ao seu redor para depois acalmar, ser comida pelos peixes, vir à tona, ser devorada pelos homens...
by Ar, 20 de Abril, 1999















